08 agosto, 2012

Ciganos na Noruega | Capítulo 1


21 dias, 7600km, 24h de sol, 6 duches.

No último dia de Maio partimos. Juntos, mais uma vez, adiando despedidas e promessas de reencontro para dali a um mês. Junho, tínhamo-lo na mão.

Com menos de uma semana para prepararmos 21 dias de viagem, os primeiros tempos foram de experimentação e organização. Falta isto, aquilo não funciona, uma hora para pôr a tenda em pé, tudo a voar para fora da carrinha, coisas já dadas como desaparecidas... ordem, ordem, ordem!

Confiando nas direcções do Google Maps, conduzi para fora de Estocolmo uma carrinha com 5 pessoas e respectivas bagagens acumuladas durante um ano em erasmus. Na primeira oportunidade, e também à medida que mais pessoas se juntavam ao grupo, fomos sacrificando material desnecessário. A carrinha passou a ser a nossa casa, não tínhamos outro refúgio a não ser as tendas e o conforto dos assentos. 21 dias ao ar livre, alguns passados a dormir debaixo de chuva, outros debaixo da claridade nocturna do sol do Norte.

O primeiro destino: Oslo. Tínhamos dois dias para lá chegar, o encontro com o T. estava agendado para Sábado, às duas da tarde, na Ópera. Parámos então a meio caminho para passar a noite e surge logo uma discussão que se repetiria praticamente todos os dias: onde acampamos? ‘Já é tarde’ ou ‘hoje quero tomar duche’ eram desculpas para seguir para um parque de campismo, mas desde cedo que as começámos a ignorar porque todos os dias eram cada vez mais tarde e os duches, miragens em terceiro ou quarto plano.

Mas a discussão continuava: aqui o terreno não é plano, não é fofo, há vento, não há lenha, está tudo molhado, não se consegue estacionar, tem mosquitos, está demasiado exposto, ... enfim, não é bonito. Queremos um bom sítio para passar a noite, estamos na Noruega! Um país conhecido pelos seus cenários naturais incríveis. A maior parte das vezes, depois de voltas e desvios, encontrávamos o sítio que procurávamos, é aqui!

[R. Keys] Canon 550D

Por sorte, logo na primeira noite, enquanto conduzia por trilhos florestais na demanda pelo spot perfeito, tivemos o nosso primeiro contacto com a fauna selvagem nórdica. Encontrávamo-nos ainda em solo sueco, na zona de Hammarö, perto de Karlstad. Cuidado! Vai ali um alce aos pulos! Pára, pára! Olha outro! Olha uma raposa! Leva um bicho na boca... E ali ao fundo andam veados aos saltos! Um moosesafari completo em menos de 10 minutos... Demos a nossa demanda por bem sucedida e resolvemos acampar no parque de campismo local onde ainda nos debatemos durante uma hora com a tenda gigante laranja que trazíamos. Na manhã seguinte, depois de armazenarmos um mega carregamento de mantimentos, deixámos a Suécia de vez e só parámos em Oslo.

Apesar de não conhecermos a cidade e de termos gostado do pouco que vimos em dois dias (sendo a Ópera um ponto de paragem obrigatório não só para apanharmos o T., mas sobretudo por sermos um grupo de curiosos da arquitectura), estávamos desejosos de nos fazermos à estrada e deixar a vida urbana para trás. O intuito da viagem era conduzir muito e tentar chegar o mais a norte possível. Antecipávamos a nossa incursão nos territórios remotos noruegueses e fazermos um wild camping sério, como deve ser. Digamos que acampar em Oslo, mesmo que seja num parque junto a um lago (Sognsvann) a 10min de carro do centro, faz figura de acampamento de ciganos ou imigrantes...

Conhecemos uma amiga da S., a quem demos boleia até Oslo, que estudava arquitectura na cidade e que nos mostrou a escola. Para além disso também nos emprestou a casa de banho dela onde demos início à contabilização dos nossos duches. Mais uma vez, e como temos vindo a fazer nas nossas viagens, explorámos os cantos à faculdade. Estavam em entregas finais na AHO (Arkitektur- og designhogskølen i Oslo), pelo que tivemos um vislumbre dos últimos preparativos para as apresentações. As instalações eram relativamente recentes e bem equipadas e notava-se uma preocupação e detalhe na materialidade e espacialidade que caracterizava o edifício, algo bem diferente da nossa escola em Estocolmo. Talvez inspirados pelo ambiente circundante, ou influenciados pela cultura arquitectónica norueguesa, também os alunos trabalhavam em projectos muito claros em que o conceito adquiria uma expressão quase artística na sua interpretação física. As apresentações misturavam bons desenhos e maquetas bem executadas, não deixando de recorrer a técnicas e instrumentos variados e pessoais, conseguindo no entanto a harmonia do conjunto e sensibilidade na escolha de cores e materiais neutros, mas significativos.



Canon AE1 | Fuji Superia 200 ASA

Após duas noites de campismo junto ao lago em Oslo (onde lavámos loiça de cócoras à vista de todos os joggers citadinos que por lá exerciam o físico ao fim do dia) e depois de umas últimas cervejas nocturnas em ambiente urbano, era altura de empreender marcha. Chovia na manhã em que desmontámos o acampamento e subimos de carro ao Holmenkollen ski jump que alguém se lembrara dizer ser da autoria de Zaha Hadid (verifiquei na Wikipedia há dias, diz ser do gabinete dinamarquês JDS). Tirámos a foto mandatória e passámos a restante meia hora no pequeno café existente no vão da enorme estrutura a discutir o rumo a seguir. Para fazer as coisas como deve ser, deveríamos ir até à costa sul e, dali, ter a experiência inteira da subida para norte. De volta ao carro, traçámos no mapa o percurso que nos levaria até Kristiansand, cidade costeira no sul, onde por acaso demos de imediato com o inesperado Kilden Theatre & Concert Hall dos finlandeses ALA. Ainda não tínhamos conseguido imprimir nem comprar a publicação que se revelaria fundamental para o nosso itinerário durante aquelas 3 semanas – “Nasjonale turistveger” reunia um conjunto de percursos marcantes na paisagem norueguesa, de norte a sul, pontuados por pequenas intervenções contemporâneas de interesse arquitectónico-paisagístico como miradouros, percursos pedestres, pontes, wcs, cafés ou zonas de merendas. Inquirir acerca da “casa de banho arquitectónica” mais próxima passou a ser ritual de todas as manhãs.

Na aproximação a Kristiansand a paisagem mudou repentinamente à saída de um túnel e encontrámo-nos a atravessar uma ponte alta, cheia de sol, com uma língua de água lá em baixo entre dois montes verdes. Finalmente, os cenários prometidos começavam a surgir timidamente e imediatamente as máquinas fotográficas saltaram das malas. O ambiente no interior da carrinha também mudou, a música tocava bem alto, o sol entrava pelas janelas e as expectativas deixavam-nos animados. A grande velocidade, como aliás era sempre costume, entrámos na cidade e travámos a fundo em frente à cobertura ondulante do Kilden.



Canon AE1 | Fuji Superia 200 ASA

Deixámos pouco depois a preguiçosa e domingueira Kristiansand após uma pausa que deu para desenhar, fotografar, deambular no interior do Concert Hall, perder uma bola de futebol no canal, comer uma caixa grande de bolachas e conversar com um senhor norueguês que chegou de barco e disse ser músico. Estava curioso em saber qual o nosso objectivo tão a norte e adiantou-nos que se tivéssemos sorte com o tempo, veríamos o “midnight sun. And maybe have some midnight fun...” Dissemos adeus e seguimos em direcção a Stavanger. A tarde ia adiantada quando decidimos parar numa pequena vila e perguntar se haveria algum supermercado na zona, aberto. Dois noruegueses locais partiram-se a rir na nossa cara. Com um forte sotaque, aconselharam-nos numa próxima vez a escolher um “destino mais civilizacional.”

Descobrimos o céu azul, aberto, da costa. O sol já se punha e procurámos um sítio para acampar. Após algumas paragens em zonas com potencialidades para a prática do campismo e algumas excursões por campos e calhaus com rebanhos de ovelhas, decidimo-nos por um campo aberto de erva fofa debaixo da lua cheia. Os rapazes encontraram alguma lenha, apesar de não ver árvores nenhumas por perto, e eu e a E. abrimos a garrafa de Porto enquanto preparávamos o jantar. Ao outro dia de manhã, quando eu e o T. pegámos na loiça para a ir lavar a uma pequena enseada, descobrimos que uma fila de ovelhas se nos tinha atrelado, atraída pelo barulho dos tachos e talheres que o T. transportava. Ele andava, elas andavam. Ele parava, elas paravam. Ele olhava para elas e elas respondiam da mesma maneira.

Nesse dia, deixámos para trás a costa azul e verde com as suas vacas castanhas a pastarem junto à água e os celeiros vermelhos a pontuarem a paisagem plana. Apanhámos o nosso primeiro ferry e não resistimos a vir cá fora espreitar a paisagem montanhosa debaixo de um céu carregado. O barco cheirava a óleo.


[R. Keys] Canon 550D


31.05 - 04.06
1080 km
Stockholm-Hammarö-Oslo-Kristiansand-Stavanger

05 agosto, 2012

Recordações da terra do caviar e vodka.

Ora, aviso já que vou reservar direitos de exclusividade sobre este blog durante, pelo menos, o resto do mês...
No final de Abril, última entrada que fiz no Prato do Dia, em Estocolmo, encontrava-me em rescaldo da ida à Rússia. Prometi fotos? Não me lembro. Mas aqui ficam alguns pormenores dessa viagem delirante (culpa do vodka?) enquanto repesco as entradas do mês de Junho.






 



 



 

 





Санкт-Петербург + Москва
Canon AE1 | Fuji Superia 400 ASA

29 julho, 2012

degustando...



Hoje senti repentinamente uma urgência em revisitar este prato do dia em Estocolmo.
Como alguns já deverão saber, estou de regresso a Portugal há já um mês. Tenho pensado superficialmente no rumo a dar a este blog e hoje ocorreu-me uma solução.
Não, esta não é uma nota ou mensagem de fecho. Ainda tenho algumas histórias e fotografias (que aos poucos são finalmente reveladas!) para partilhar aqui.
Mas hoje acordei e pensei que as minhas histórias de Estocolmo me escapavam e que, em breve, já não me pertenceriam.

Há quase um ano atrás, a 1 de Agosto, eu e o Chico aterrávamos na Suécia.
Ontem, foi a vez do João Francisco, um dos nossos colegas substitutos para o novo ano que se inicia. Percebi, pela mensagem que publicou no facebook, o seu entusiasmo.
De repente, lembrei-me de todos os meus sítios preferidos em Estocolmo, dos dias de verão na cidade, das pessoas que conheci e das experiências que partilhei. Senti um enorme carinho pela cidade que me tinha acolhido (de início, com alguns pequenos problemas que mais tarde sofreram ajustes) e a qual deixei num dia chuvoso há apenas um mês atrás. Senti como agora outra pessoa me substituiria, alguém que não conheço assim muito bem, e que contará as mesmas e outras histórias, conhecerá pessoas e amigos diferentes e do qual espero, talvez com uma certa indiscrição, ouvir notícias que me recoloquem nesses lugares e nessas situações do meu ano em Estocolmo.

Apeteceu-me dizer-lhe logo que deveria aproveitar as noites de Verão no Trädgården, dar um mergulho no parque em Sankt Eriksplan, espreguiçar-se na relva da Nytorget durante a tarde, depois de uma salada ou tosta da Gilda’s Rum, em frente à praça. Passear-se pelos cafés e lojas em segunda mão do ambiente semi-boémio, semi-alternativo de Södermalm, apanhar um barco e passar uns dias a acampar numa ilha no arquipélago, alugar uma bicicleta e perder-se pela cidade (afinal agora não me parece nada grande). No Lidl em Rådmansgatan os preços são mais acessíveis e às vezes apetecia-me levar filetes de salmão fresco que, no forno, e temperados unicamente com sal, pimenta e limão, ficavam uma maravilha (a Leonor que o comprove!). O Systembolaget da T-Central é o que fecha mais tarde (às 20h). A Associação de estudantes da Universidade tem um terraço numa casa estilo internacional onde se passam umas tardes molengas ao sol, com um copo de cerveja, a fazer os trabalhos de casa do curso de sueco... O Herman’s, o vegetariano de Södermalm, tem preço especial de estudante às segundas-feiras para o menu buffet e uns jardins apetecíveis para um final de tarde junto à água, a observar a cidade. Não esquecer os obrigatórios piqueniques e barbecues de Verão nos parques, com luz até às 10h30 e uma persistente claridade no horizonte durante toda a noite. Quanto à faculdade, não posso deixar de me interrogar (apesar de ainda ser muito cedo) quem irá escolher para professor e onde será o seu estúdio (vejo-me a passear pelo edifício e a recordar o cheiro a madeira cortada e a cartão queimado da sala das máquinas).

Apeteceu-me contar-lhe isto tudo e muito mais, mas achei que seria como lhe contar o fim da história sem lhe ter dado oportunidade de ler o livro antes (espero que ele não venha aqui ler isto!). Afinal, foi disto que foi feito o tempo que passei em Estocolmo. Disto e das pessoas que me acompanharam, verdadeiros amigos. Espero que o João e os outros colegas que agora iniciam o seu percurso por terras escandinavas também aprendam este gosto e afecto pelas coisas simples que encontrei por lá e que descubram ainda mais do que eu.

Vai ser um ano memorável, acreditem.






Stockholm | Agosto'2011
Canon AE1 | FujiColor 100 ASA

30 abril, 2012

Receitas de Abril.

Primeira quinzena: Pão com Filadélfia.
Prepare algumas fatias de pão, uma faca e abra a embalagem de Filadélfia. Barre suavemente o pão tentando espalhar o creme homogeneamente.


Não, não foi bem assim.
Desde o regresso de Copenhaga que por força de circunstâncias (supostamente académicas) me vi enfiada no estúdio 12 (ou mais) horas por dia para produzir e finalizar um concurso bastante exigente "em parceria" com o escritório do meu professor. Confesso que o grupo se debateu com dificuldades de foro conceptual na materialização do projecto e já quase não nos podíamos ver à frente. A refeição do dia consistia em pedaços de baguette arrancados e mergulhados em embalagens de Filadélfia que se iam acumulando num canto, junto a testes de impressão e maquetas partidas. Penso que comi toda a Filadélfia que se pode comer numa só vida. Porquê? Fácil, barato e rápido. Não há muitas opções por aqui, pelo menos para estudantes... O grupo foi ficando mais pequeno à medida que a Páscoa e outros compromissos se iam aproximando e acabei por ficar só eu e os meus dois companheiros franceses, os mesmos do concurso do início do ano. Com relativo custo e sacrifício (mais do que julgaria dispensar em Erasmus), pelo meio de gargalhadas e alguns stresses, lá conseguimos empacotar o projecto, depois de um par de noites em branco no escritório do meu professor (onde roubámos as bolachas todas, bebemos o café todo e fizemos testes de impressão à tola em rolos de papel fotográfico). Diga-se que o abuso do material e das instalações foi o único sinal de "parceria" de que desfrutámos com o dito escritório. Chegou-se a um ponto onde já nem recorríamos a palavras entre nós - habituados uns aos outros desde Setembro, depois de tantas horas de convívio dentro e fora da escola, a trabalhar, a viajar e a festejar, os sinais e gestos eram suficientes. Ficam os layers em francês, inglês e português do ficheiro CAD para testemunhar os avanços conseguidos na formação linguística de cada um.

Ufa!


Dia 4: Bolo rápido de Aniversário.
Diga à aniversariante que vai fazer testes de impressão e que volta já. Sorrateiramente, leve o casaco e a carteira consigo e desça ao supermercado mais próximo. Compre cacau e leite condensado. Volte à escola, roube uma taça que estava ali mesmo a calhar e meta a mistura no microondas durante 10 minutos. Entretanto, combine com com o amigo da aniversariante fazer um lanche surpresa com os colegas do estúdio no átrio do piso. Surpreenda-a enquanto esta está completamente absorvida no Archicad com: bolo, champanhe, flores e os amigos do Porto em directo dos Aliados, no skype! Considere naturais as reacções de confusão, desorientação, alegria e incapacidade de escolher uma língua commumente falada por todos os presentes.




Por azar, o dia 4 calhou mesmo em cheio na recta final do projecto. Raio do Facebook, toda a gente sabia que eu fazia anos. Até o professor. Só prova que (pelo menos) metade do tempo de entrega é passado a fazer refresh e scroll nas notícias sociais. Não estava minimamente preparada para a pequena grande surpresa que conseguiram engendrar e fiquei muito sentida. Tinha acordado com a decisão de que nem ia tentar ter um dia de anos. Nos dias subsequentes registou-se um tráfego intenso na minha caixa de correio (física!) que me deixou muito contente e com outro ânimo a caminho da faculdade e do trabalho que me esperava. Mostrava com orgulho e carinho os postais que recebia aos meus colegas.
Oooohh...




Domingo de Páscoa: Ovo Kinder pequeno.
Rode o ovo na mão, procurando com o indicador uma falha na prata que possa levantar. Puxe pela prata e deixe cair o ovo na cova da outra mão. Abocanhe o topo do ovo e trinque até sentir a cápsula de plástico amarela interior. Segure uma mão por baixo do queixo para apanhar migalhas de chocolate que possam cair. Retire a caixinha de dentro do ovo e coma o resto do chocolate. Descubra o que contém.
Nota: pode ser servido como sobremesa após um almoço de páscoa consistido por pão com Filadélfia.


E pronto. Assim se fez a Páscoa.


A Grande Salada Russa.
Na segunda metade do mês aconselha-se passar do regime Pão com Filadélfia para a dieta Pão com Caviar. Para acompanhar, beba muito vodka.




Descobri que afinal gosto de caviar. Sobretudo quando é o original, comido em Moscovo. Pego num pedacinho de pão bom, barro manteiga e depois uma camada de bolinhas laranjas em cima, que deixo rebentar na boca como uvas pequeninas. Mmmm...
Que dizer da Rússia? Penso já ter escrito no meu caderno tudo o que poderia querer lembrar de mais uma viagem atribulada, intensa e muitíssimo divertida. Basicamente, fomos lá comer e beber. E claro, ver a Praça Vermelha, poh! Uma recompensa bem merecida depois de termos entregue o concurso e passado fome durante duas semanas.




"São Petersburgo recebeu-nos com muita chuva" foi a primeira entrada que registei. E que bem que chovia. Lençóis de água, diria eu. "No aeroporto, não se viam mais turistas e foi completamente encharcados que entrámos num autocarro onde ninguém pagou viagem." O bilhete afinal pagava-se à saída... "A chuva não nos deu tréguas e foi com as mochilas e os pés em água que percorremos a Nevsky Prospekt à procura do Central Hostel. Passámos por ele e nem o vimos, voltámos atrás. [...] Uma enorme escadaria lenta, de pedra, subia pelo interior do prédio velho. Tinha sido inteiramente pintado (ou salpicado) de tinta azul-cueca brilhante. [...] Escusado será dizer que o hostel é o mais "crappy" possível. Pagámos em dinheiro à menina da recepção escura (que era a única que arranhava o inglês) e ela mostrou-nos o quarto: tectos altos, frio, janelas "seladas" contra o frio do Inverno russo (que dura ainda agora em Abril) com fita-cola de papel e uma parede falsa (alguns 7cm de espessura) por onde se faz a entrada no quarto através de uma porta de correr (muito manhosa). Diga-se que ainda agora pendurei o meu casaco encharcado num cabide preso na dita parede e aquilo abanou por todo o lado. Parece que alguém reaproveitou a parede e a colocou ali, porta e tudo. Não vai até cima e ouvimos conversas russas no corredor como se estivessem a decorrer dentro do quarto."
A precariedade do alojamento (que se repetiu mais tarde em Moscovo), foi apenas mais um motivo de descoberta cultural que pontuou e proporcionou mais situações caricatas memoráveis à nossa aventura. Se pudesse voltar atrás sabendo o que sei, faria as mesmas escolhas. Entradas como "parece que recuámos ao início dos anos 90 - as pessoas, as roupas, as cores, o ambiente" ou ainda "cheira a mijo e tabaco" (e álcool!) farão parte das memórias sensitivas que para mim melhor caracterizam a Rússia. Julgo que vim de lá com mais uns mil cigarros fumados, por exposição passiva àqueles ambientes.


"O comboio nocturno para Moscovo partia às 11h30. [...] Parece que fica tudo mais longe do que o mapa sugere. Chegámos mesmo em cima da hora. A estação, afinal, era a que vinha por engano no lugar da Finland Station no guia do Wallpaper. Tínhamos passado por lá (e pela estátua enorme de Lenin na praça em frente) e ficado desapontados por não encontrar o lindíssimo tecto triangulado com que agora nos deparávamos na Moscow Station. Um enorme mapa das linhas férreas russas dominava umas das paredes. Debaixo do mesmo tecto triangulado, corremos pela plataforma exterior até à última carruagem do comboio, supostamente a nossa. Afinal, era só a do R. e do M. Uma música clássica trágica tocava bem alto nos altifalantes da estação, atingindo o clímax enquanto corríamos de mochilas às costas. À entrada da nossa carruagem de 3ª classe um guarda controlava nomes, números de passaporte e camas atribuídas. Falava um pouco de alemão, nenhum inglês. Entrámos, meio tocados pelo álcool do jantar e pela emoção da correria, numa carruagem em open space, cheia de camas-beliche e cheia de... russos, claro.





[Este apanhou o mesmo comboio, no mesmo sítio. Mas deve ter ido em 1ª classe... "Les Poupées Russes"]



"Do you speak english?" perguntei ao meu vizinho. "A little bit", respondeu com forte sotaque. Eu e o T. abrimos umas cervejas e conversámos enquanto o comboio arrancou marcha. O nosso vizinho ainda nos emprestou o isqueiro para abrir as garrafas e mais tarde perguntou-me de onde era. "Portugal." "Ah. Ocean." "Yes. Atlantic Ocean. Very far away." Consegui adormecer no meio daquela gente toda. Dormi 4h, vestida e de lentes. A maior parte dos russos estava bem equipada para a sua noite no comboio - pijama, pantufas, robe, escova de dentes e cházinho. Surreal.
Acordei às 6h da manhã com a RetroFM a berrar o YMCA. Dei um pulo na cama. Devemos estar a chegar. Espreitei lá para fora, o dia já estava claro e viam-se construções, sobretudo grandes blocos habitacionais dos anos 70, cinzentos. [...] "Lisbon!" diz-me jovialmente o meu amigo russo, indicando com as mãos a paisagem urbana que se desenrolava lá fora. Passado pouco tempo é a voz no altifalante que anuncia a chegada à cidade de Moscovo. [...] Às 9h30 já estamos na Praça Vermelha."
Em Moscovo tivemos a sorte de ter uma guia especial, a Anna, a russa maluca da nossa turma em Estocolmo. Graças a ela conseguimos-nos orientar numa cidade tão grande e penso que devemos ter ido aos melhores sítios que um visitante nesta cidade poderia escolher. Comemos bem, mais uma vez, e devemos ter bebido demais.
"Aprendi que Moscovo é uma mistura de símbolos poderosíssimos: comunistas, capitalistas e religiosos. Tudo a conviver em grande intimidade." A quantidade de informação com que sou assolada deixa-me tonta. É pouco o tempo para observar, digerir, relacionar e perceber. As perguntas são muitas e as respostas (e o inglês) da minha colega deixam-me ainda mais confusa. O trânsito é infernal e rápido, a poluição terrível e o metro deixa-me de boca aberta. A riqueza e diversidade urbana é aliciante e fico contente por vaguear sem mapa e sem rumo, por vezes deixando a Anna guiar-nos cegamente, pela cidade. Tudo é monumental e impositivo, esmagador. Mas passando por passagens apertadas e descobrindo pátios escondidos existe uma outra cidade não menos intrigante e desejável. Talvez não para o turista comum, mas antes para estudantes de arquitectura, da cidade e dos seus habitantes, interessados na veracidade, diversidade e genuinidade dos lugares. Felizmente não perdi nenhum rim a meio caminho entre as minhas explorações urbanas...




A Anna levou-nos ainda a conhecer a escola dela. "Uma casa grande, do século XIX, provavelmente, e com uns azulejos bonitos na entrada surgiu por detrás de um pátio. Passámos pela guarita da entrada, onde umas câmaras de vigilância estavam apontadas para nós. [...] A escola da Anna reunia todo um conjunto de práticas ligadas à arquitectura e não apenas o curso geral de arquitectura. Planeamento urbano, design, paisagismo, ... era feita alguma distinção entre estas áreas, mas concentravam-se num mesmo edifício. Fomos recebidos por duas amigas que nos acompanharam através da casa e nos mostraram trabalhos de alunos, uma aula de desenho de modelo nos ateliers, uma avaliação de projecto e até mesmo um pequeno concerto que estava a acontecer num pequeno salão - ali, até se tocava e cantava música clássica. Insistiram para que reparássemos nos desenhos a aguarela e pastel, representações fidedignas da cidade e de edifícios executadas nas aulas de desenho da escola, por alunos. Já tinha reparado que a Anna sabia desenhar bastante bem. Vimos maquetas que interpretavam composições coloridas e abstractas de artistas como Malevich. Vimos cartazes de habitação de 3º ano. Vimos desenhos de viagem de história da arquitectura russa. Vimos esculturas iguais às que desenhei nas Belas Artes do Porto. Inevitavelmente, lembrei-me do Porto, pois claro. [...] Fomos conhecer a mãe dela. [...] Uma senhora baixinha e cheiinha, de cabelo curto e a cara da Anna. Não falava inglês, talvez por vergonha, mas tenho a certeza que acompanhava a nossa conversa e participava em russo, dirigindo-se a nós, enquanto a Anna traduzia. Aparentemente, era directora daquilo tudo. Estava à frente do departamento de "landscape" e mostrou-nos com um entusiasmo tranquilo as instalações e os trabalhos dela e dos alunos. Percebemos que era uma artista bastante conceituada e que ao longo de vários anos tinha colaborado com Kengo Kuma. Convidou-nos a entrar no seu gabinete onde nos pôs à vontade e conversou mais um pouco. Era uma pessoa extremamente gentil e culta [...]. O espaço estava decorado com prémios, trabalhos, livros e fotografias da sua carreira profissional. [...] Apesar de ainda estarmos a abarrotar do almoço, fez questão de nos oferecer chá e bolo e ainda nos presenteou a cada um com um ovo pintado da Páscoa."


Fotos da Rússia? Analógicas, por favor...


Último fim de semana do mês: Marshmallows na fogueira.



Ligue a um ou mais amigos. Procure um mapa do arquipélago de Estocolmo e escolha uma das milhares de ilhas existentes. Veja o horário dos barcos e meta-se num, de preferência num dia de sol. Deixe-se ir. Desembarque numa ilha de 1km por 0.7km. Palmilhe a ilha, suba a calhaus, observe a passarada. Encontre o spot de acesso mais complicado para montar a tenda, tenha em atenção a vista sobre o mar. Faça um piquenique acompanhado de vinho tinto italiano, mas evite o queijo Filadélfia. Antes que fique demasiado escuro, comece a preparar a fogueira. Procure ramos ou tronquinhos secos e ignore o amigo que lhe tira fotografias enquanto serra lenha. Precisa de pauzinhos e um isqueiro para acender o lume. Juntem-se todos, continuem o piquenique à volta da fogueira e aproveite o stock de álcool que todos se lembraram de trazer menos você. Agora sim, pode abrir o pacote de marshmallows e distribuir pauzinhos pelos presentes. Pressione o marshmallow na ponta do pauzinho até o sentir preso. Estique-se sobre as brasas e pegue fogo ao primeiro marshmallow num erro típico de amador. Repita a operação, mas desta vez com cuidado. O marshmallow está no ponto quando o seu interior estiver totalmente derretido. Coma muitos senão outros o farão.


Sugestão para o mês de Maio: tudo na brasa!
Agora que o termómetro de Estocolmo indica temperaturas que rondam os 15ºC (ou mais!), há sol, flores, relva verde e dias compridos, prevê-se a proliferação do fenómeno: barbecue... Já me cheira.


E, só por acaso: depois de lerem este blog espectacular, não haverá por aí alguém que me queira oferecer uma posição como cronista de viagens e culinária?...
Até tenho novas fotos de perfil!



30 março, 2012

Architecture on the catwalk, yeah!

Foi já há uma semana que eu e o chico fomos até Malmö e Copenhaga ver a "arquitectura da moda".
Senhoras e senhores, as estrelas da passarela...!